
Para muitos brasileiros, o Natal é sinônimo de casa cheia, mesa farta, barulho, risadas, família reunida e aquele clima de festa que começa dias antes do dia 24. Quando essas pessoas chegam à França — ou passam aqui o primeiro Natal — o choque cultural costuma ser grande. E, para muita gente, vem a decepção.
Não porque o Natal francês seja “ruim”, mas porque ele é radicalmente diferente do que estamos acostumados no Brasil.
A expectativa do brasileiro
No Brasil, o Natal é vivido intensamente:
- Ceia grande, com muitas pessoas
- Jantar que começa tarde e vai até a madrugada
- Música, conversa alta, crianças correndo
- Ruas movimentadas e comércio funcionando até em cima da hora
Criamos a ideia de que o Natal precisa ser animado, caloroso e coletivo. E é justamente aí que começa o problema.
A realidade do Natal na França
Na França, o Natal costuma ser:
- Mais silencioso
- Mais curto
- Mais íntimo
- Muito mais fechado (literalmente)
O jantar geralmente acontece cedo, em grupos pequenos, muitas vezes só com o núcleo familiar. Depois da ceia, cada um vai para casa. No dia 25, praticamente tudo fecha: supermercados, lojas, restaurantes e até parte do transporte público.
Para quem mora sozinho ou longe da família, isso pesa.
O frio também conta (e muito)
Não dá para ignorar o fator climático. Em dezembro, é comum sair de casa com 10 graus, 2 graus ou até temperaturas negativas, dependendo da região.
Existem desfiles, iluminações e até fogos de artifício em algumas cidades. Mas fica a pergunta honesta: A que preço?
Sair de casa no escuro, enfrentar frio intenso, vento e às vezes chuva ou neve, só para ver algo rápido e voltar correndo para casa não é exatamente empolgante para todo mundo, especialmente para brasileiros acostumados com o Natal de bermuda e chinelo.
A ceia de Natal francesa: comida que nem sempre agrada brasileiros
No quesito comida, o Natal na França também costuma surpreender e nem sempre positivamente. Enquanto no Brasil a ceia é marcada pela abundância e variedade, aqui ela tende a ser mais tradicional e contida. A famosa bûche de Noël, por exemplo, é praticamente obrigatória como sobremesa e substitui nossos bolos e rabanadas, mas nem todos se encantam com esse doce em formato de tronco. Mas, eu adoro!
Além disso, é comum a presença de frutos do mar, como ostras e camarões, que fazem parte da tradição natalina francesa, mas podem causar estranhamento para quem associa Natal a carnes assadas e pratos quentes. Pratos como coq au vin, o peru de Natal, o escargot e o boudin blanc aparecem com frequência nas mesas francesas, reforçando o caráter cultural da celebração. Para mim, no entanto, essa ceia mais sofisticada e menos farta acaba deixando a sensação de que falta aquele conforto e exagero típicos do Natal no Brasil.
Apesar do estranhamento inicial, o lado bom da ceia de Natal na França é justamente a oportunidade de se abrir ao novo. Provar pratos diferentes, descobrir sabores tradicionais e entender o significado cultural de cada receita faz parte da experiência de viver em outro país. Com o tempo, posso dizer que acabei incorporando esses pratos ao meu próprio Natal, criando uma mistura entre tradição francesa e saudade brasileira e percebendo que conhecer novos sabores também é uma forma de ampliar horizontes.
A árvore de Natal francesa: tradição, pinheiro e… trabalho extra!
Não sou a Grinch do Natal, muito pelo contrário! Adoro essa época do ano e, desde criança, sempre montei a árvore de Natal, decorei toda a casa com enfeites, luzes e detalhes que deixam o ambiente mágico. No meu primeiro natal fora do Brasil, decidi experimentar a tradição local de comprar um Sapin de Noël verdadeiro.
Minha primeira impressão foi incrível, adorei o cheirinho de pinho que deixa a casa com clima natalino, mas confesso que deu mais trabalho do que imaginava. Esqueci de regar a planta, ela secou, e quando fomos levá-la a um local apropriado para descarte (déchetterie), o carro ficou cheio de folhas espalhadas por todo lado. Depois dessa experiência, ainda insisti por mais um ano e depois parei de comprar árvore de Natal, mas ainda guardo boas lembranças do charme que o pinheiro natural trouxe à nossa casa.
Marchés de Noël: encanto ou realidade?
Os famosos marchés de Noël são muito vendidos como algo mágico. Na prática, na maioria das cidades, eles são apenas barraquinhas. Você encontra vin chaud, salsichas, crepes, alguns artesanatos… mas nada que justifique grandes expectativas, principalmente fora das cidades turísticas.
Confesso, porém, que minha primeira experiência com um mercado de Natal na França foi diferente: em 2021, ainda como turista, fui a Nice e adorei o Marché de Noël de lá. Achei tudo muito organizado, limpo, a decoração e a iluminação estavam fantásticas, e sim, tinha até roda-gigante — eu subi e gostei muito! Hoje em dia, morando aqui, percebo que algumas coisas que a gente faz na primeira vez têm um brilho especial que, com o tempo, parece se perder um pouco. Ainda assim, Nice ficou marcada como uma memória natalina realmente encantadora.
Paris não resume a França
Muita gente imagina o Natal francês baseado em Paris, porém a verdade é que Paris não resume a França. A realidade de muitos brasileiros que vivem aqui é bem diferente, já que moram em cidades pequenas ou médias onde não há grandes eventos, desfiles ou iluminações especiais. Na maioria das vezes, não acontece praticamente nada, além de uma pequena praça decorada e algumas luzes discretas, o que reforça ainda mais a sensação de frustração para quem cria expectativas mais altas.
Dentro desse cenário, a Disneyland Paris acaba sendo uma realidade à parte. O parque oferece um Natal mais festivo, cheio de decorações, desfiles e atrações temáticas, proporcionando uma experiência realmente diferente e encantadora. No entanto, esse clima especial tem um custo alto: entre os dias 24 e 31 de dezembro, os preços dos ingressos, hotéis e serviços aumentam substancialmente, tornando a experiência inacessível para muita gente.
Roda-gigante no frio: qual a graça?
Algumas cidades montam roda-gigante como atração natalina, mas, cá entre nós, isso costuma significar filas longas, frio intenso e muito tempo parado ao ar livre apenas para dar algumas voltas lá em cima. Para muitos brasileiros, a sensação que fica é inevitável: qual é a graça disso?
E Strasbourg, a capital do Natal?
Strasbourg é famosa por ter um dos Marchés de Noël mais conhecidos da Europa. De fato, a cidade é bonita e bem organizada, porém, durante esse período, torna-se extremamente lotada, além de muito cara e difícil de circular. Por isso, não é uma experiência acessível nem agradável para todo mundo, especialmente para quem mora longe ou não gosta de enfrentar multidões no frio.
O fator solidão
Talvez o ponto mais difícil do Natal na França para brasileiros seja a solidão.
Primeiro Natal longe da família, amigos espalhados, convites escassos. O silêncio das ruas, que para alguns franceses é conforto, para muitos imigrantes pesa emocionalmente.
Não é raro ouvir brasileiros dizendo que o Natal aqui é um dos momentos mais difíceis do ano.
Quando o Natal na França pode ser bom
Apesar de tudo isso, existe um cenário em que o Natal na França realmente pode ser especial.
👉 Nas regiões de montanha.
Em algumas áreas, especialmente nos Alpes e nos Pirineus, o Natal coincide com a abertura das estações de ski. As montanhas cobertas de neve, as vilas decoradas e o clima de inverno fazem mais sentido dentro da proposta francesa.
Para quem gosta de frio, esportes de inverno e paisagens nevadas, esse pode ser o melhor Natal possível na França!
Conclusão
O Natal na França não é pior que o do Brasil — ele é apenas diferente. A decepção nasce da comparação e das expectativas que trazemos na bagagem.
Para muitos brasileiros, o Natal francês é frio, silencioso e solitário. Para outros, é calmo, organizado e introspectivo.
Entender essa diferença cultural ajuda a sofrer menos — e, quem sabe, a encontrar um jeito próprio de viver essa data longe de casa. 🙂